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As vozes que me inspiram

Quarta-feira, 05.10.11

 

 

As vozes que me inspiram escolhem a simplicidade

e o recolhimento

são amáveis por natureza

o olhar límpido e brilhante

riem-se muito

e por vezes choram

 

As vozes que me inspiram são muito antigas

e sempre actuais

lembram velhinhas de rostos muito brancos

e sorrisos muito carinhosos e maternais

e quando falam é como um sussurro que mal se ouve

como um instrumento musical

a repetir a mesma frase


Lembro como quem viaja no tempo sem se mexer

essa verdade que aprendi ainda é a de hoje

antes no plano teórico agora no plano prático

as vozes que me inspiraram estavam certas

e as que me inspiram hoje também


Gostava de lhes dizer que estou aqui

neste preciso momento

de consciência clara, como um espelho

a reflectir encontros e desencontros

palavras e silêncios

e a claridade exacta

 

A síntese paradoxal que hoje sou

(ou penso que sou)

essa já é da minha inteira responsabilidade

Passei demasiado tempo a observar o mundo

e sempre através de janelas protectoras

só de vez em quando me atrevi a inundar-me de sol

O mundo sempre me assustou

toda essa agitação sem lógica nem sentido

mas que pode ser amável em pequenas doses

clareiras no tempo onde nos podemos abrigar 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:38

"Lie to me": uma série muito útil

Quinta-feira, 04.03.10

 

Já aqui falei nesta série Lie to me, mas não cheguei a evidenciar toda a sua utilidade.

Trata-se essencialmente de um grupo de investigadores que apoia o trabalho policial, sobretudo nos interrogatórios. Tim Roth é muito convincente no papel de Dr. Cal Lightman. E as restantes personagens são complexas q.b. e nem sempre seguem as regras, o que torna a série mais credível. Os diálogos são cuidados e adequados. E as situações são muito actuais, cobrem uma realidade que está aí, como a escravatura urbana camuflada (no episódio mais recente que vi, por exemplo, abordou o problema dos imigrantes sem protecção social e, mais especificamente, as barrigas de aluguer).

 

Ora bem, como estudiosos da comunicação não-verbal, sobretudo da expressão facial, conseguem identificar, com uma mínima margem de erro, as emoções básicas como o ódio, a raiva, o desprezo, a vergonha. E algumas mais difíceis de captar, a que eles chamam micro-expressões, pormenores tão subtis que escapam facilmente ao investigador mais treinado, como o desgosto ou a mágoa, importante no caso do suicida potencial.

Mas o mais interessante é mesmo a diferenciação da verdade da mentira. Incrível. Conseguir identificar a mentira na expressão facial, a partir de diversos movimentos dos músculos faciais.

 

Sempre fixei a minha atenção na voz, treinei-me desde que me conheço para distinguir timbres, entoações, tonalidades, cores, das vozes mais diversas. Assim como pronúncias, entretenho-me, por exemplo, a identificar os locais de origem das pessoas. A sério!

E não apenas vozes do meu quotidiano, digamos assim, também as vozes dos actores, por exemplo. Identifico-os pela voz. 

Também me treinei para pressentir as emoções pela voz. Raramente me engano.

 

Mas na expressão facial, sou uma ingénua. Frente a frente, tendo a acreditar e a confiar no que me dizem. Isto é, na presença da pessoa, parto sempre do princípio que não tem qualquer razão para mentir.

É estranho e paradoxal, detectar mais facilmente a mentira à distância e pela voz, do que na presença da pessoa. E mesmo que alguém me diga que o que me disseram não corresponde à verdade, ainda assim hesito. Estranho, não é?

Por isso gosto tanto desta série! Já aprendi umas coisas. Pequenas nuances em que geralmente não reparamos.

Penso que da próxima vez já conseguirei detectar uma ou outra mentirita. Não é por nada, a maior parte das vezes, as mentiras são inofensivas e até amáveis, mas quando for o caso de alguma mais significativa e que possa fazer alguma diferença, não voltarei a cair que nem uma patinha...

 

A série passa às 4ªs feiras, na FOX, sempre depois das 22:00.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:29

Coisas simples: as emoções

Sábado, 13.02.10

 

Que semana esta! Como é possível que uma pessoa como eu, que já passou há muito a fase da idade impressionável, ainda se deixe envolver pela emoção e entusiasmo, só por causa de um primeiro sinal de vida do cidadão comum, por exemplo?

 

Mas foi mesmo assim. Outras novidades entretanto me emocionaram, por razões diferentes, mas aquele primeiro sinal de vida foi o que me pôs o coração a bater mais depressa e a meter-me a caminho.

 

Se esta iniciativa alterou alguma coisa? Se teve algum impacto? Ainda é cedo para o dizer.

Mas no plano simbólico foi significativa. É um primeiro sinal de vida. De uma sociedade civil que já se dava como amorfa, indiferente, em estado comatoso.

 

Se as opiniões pós-manifestação me impressionaram ou incomodaram? Não, mas deixaram-me perplexa. O que é que os críticos da manifestação entendem por liberdade? A mim não me incomoda nada quem não esteve lá. São tão livres de não estar como eu de estar.

Quanto aos comentários deselegantes e até grosseiros, porque a ironia inteligente não é o seu forte, também não me incomodam nada, a não ser as emoções que revelam, esse subterrâneo de agressividade que os caracteriza: ódio e raiva, por exemplo, são emoções que me desagradam, confesso. 

 

Quanto ao trabalho jornalístico, uma desgraça. No "Público" o texto refere mais de 100 pessoas mas na fotografia aparece apenas uma: um senhor segura um cartaz e por trás vemos a escadaria, a Assembleia e um triângulo de céu azul. Bonito! Quem não passou em frente do grupo, isto é, a maior parte dos leitores do "Público", ficou com a ideia, erradíssima, da geração da maioria dos participantes da manifestação, por exemplo. E esse seria o dado essencial da manifestação. Pois é, falharam no essencial: a maioria dos participantes pertence às gerações pós-revolução de 74. Eu apontaria mesmo para uns 80%, os manifestantes nascidos nos anos 70 e 80. Isto já diz muito do significado da manifestação. Uns 15%, das gerações que eram crianças ou adolescentes (o meu caso) na revolução de 74. E os tais 5% da geração representada pelo senhor da fotografia. Que rico jornalismo o do "Público"! 

 

Aqui também se iniciou um novo conceito de manifestação: deixa de ser a pose ou o slogan, para ser um encontro descontraído de pessoas que partilham uma ideia e uma mensagem. Essa ideia e essa mensagem é transmitida através de uma petição que é entregue no local adequado.

A presença das pessoas ganha outro significado: estão lá, sabem porque estão lá, e isso lhes basta. No final, a promotora da petição agradece a presença de todos e batem-se palmas.

Esta cultura do encontro, numa ideia e numa mensagem que une um grupo heterogéneo de pessoas, esta cultura da amabilidade e do respeito pelas diversidades, é uma lufada de ar fresco para quem viveu numa cultura de autêntica divisão por subgrupos, essa pressão insuportável e medíocre de ideias feitas e de preconceitos.

Esta cultura do respeito e da amabilidade na diversidade é a adequada numa democracia de qualidade.

 

Penso ter apontado o essencial desta petição e desta manifestação: há aqui um salto cultural e geracional. É esse, a meu ver, o seu primeiro significado.

Nasce nos blogues e no twitter (o que me agrada pensar que o José Manuel Fernandes faz muitos mais estragos à cultura da seita das pressões, no twitter, do que fazia no "Público"!), nesse espaço de liberdade, num universo paralelo ao dos jornais e das televisões, onde a liberdade está cada vez mais ausente.

Outro significado: não há qualquer hipótese hoje em dia de manter esta cultura da mediocridade. Pode levar mais tempo do que desejaríamos, mas este é o primeiro sinal desse salto cultural e geracional, queiram ou não admiti-lo.   

 

Recentemente um amigo, numa conversa animada sobre séries de televisão, ao ver quais as minhas preferidas, referiu de forma certeira: Gostas de ver resultados rápidos.

É verdade, nunca apreciei séries como os Perdidos, que ele acompanha desde o início, por exemplo.

O nosso Alan Shore (Boston Legal) resolve os casos em tribunal e ficamos logo a saber o veredicto. Mesmo na série Flashforward vamos tendo alguma informação que nos permite ir compondo o puzzle final. E agora, na Lie to Meos resultados estão logo à vista, na observação científica das reacções faciais e corporais das pessoas. Vale a pena ver. A sério! Já aprendi uma ou duas reacções que revelam a mentira, por exemplo. É muito útil. Também já consigo identificar o ódio, a raiva, o desprezo, apenas pela expressão facial.

 

Bem, sobrevivi a esta semana e é isso que importa.

 


Correcção estatística: Depois de ver alguns vídeos da manifestação, talvez deva corrigir aqui as minhas primeiras estatísticas. Embora não se trate de nenhum estudo sociológico, gosto de analisar os fenómenos e aqui a representação por gerações tem um significado para mim.

Assim, talvez a minha geração e a imediatamente posterior, isto é, as que eram crianças e adolescentes na revolução de 74, estejam melhor representadas do que inicialmente contabilizei: em vez dos 15%, aí uns 30%. Mas ainda assim, as gerações pós-revolução de Abril são as que compareceram em maior número.

A meu ver, a distinção direita-esquerda é secundária. Porquê? Porque ninguém tem o monopólio do respeito pela liberdade. Essa consciência é individual, não é colectiva. Começa em cada indivíduo. Isso é que determina como se vai comportar no colectivo.

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:12

...

Sexta-feira, 30.10.09

 

 

Há memórias de frases

de acontecimentos

de uma determinada claridade

de uma determinada emoção

mas não consigo sequer apreender todo o sentido

 

Sei que tiveram imensa importância no meu percurso

que de certo modo o determinaram

mas ainda não consigo revê-los

ouvi-los de novo, claro e bom som

 

Há personagens que foram decisivas na minha vida

e nem sei quem são

desconheço a sua realidade

o que me disseram naquele dia

como senti o seu olhar

as suas palavras

que até podiam ser circunstanciais

vazias de sentido

mas que eu valorizei para sempre

como era meu hábito ou característica

gravar tudo o que me acontecia como se fosse na própria alma

ou registo de memória

 

Isto determinou o meu percurso

Posso até dizer hoje que parte de mim

é esse registo de memórias

como eu as vivi e senti

absorvi melhor dizendo

da forma fragmentada ou sem sentido

Talvez lhes tenha dado um outro sentido

 

Como era eu antes dessa influência da memória sensível?

É essa claridade que eu recordo vagamente

Uma nuvem, branca, de Maio

Uma determinada tarde de Verão

numa determinada varanda

Um riso, súbito, límpido

Um determinado jardim


As frases, com sequências de palavras

registadas para sempre numa parte de mim

e posteriores a essa minha natureza primordial

vieram alterar de forma inexorável todo o meu percurso


A minha natureza primordial é anterior às palavras

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 00:06

Do Tempo das Descobertas: A fuga de um lisboeta

Terça-feira, 15.09.09

 

A minha primeira descoberta para este "Do Tempo das Descobertas" vem do Ouriquense:

 

 

 

Terça-feira, 15 de Setembro, 2009

 

 

 

 

A racionalização era o meu ajustamento preferido e também o mais detestado. Se praticado por mim, tranquilizava-me; se praticado por outros em relação a mim, desesperava-me. Com os anos, aprendi que nunca se deve partilhar a nossa racionalização com a pessoa que a motivou. Mas aprendi também que ser exposto à racionalização da pessoa que a pratica em relação a nós é o caminho mais rápido para a libertação. Quando se começa a usar esta técnica, vai-se pois do desespero à melancolia e tudo acontece com a tranquilidade das rotinas. O único risco é abusar do expediente. Foi o que me aconteceu.  Nos últimos tempos, a racionalização que ouvia do outro despertava em mim algo novo. Não voltara a ser desespero, nem era já melancolia, antes um sentimento mais conformado do que o primeiro e, na aparência, mais simples do que o segundo. Seria apenas a banal tristeza, se não houvesse uma consciência tão aguda de que era preciso recorrer a um qualquer outro ajustamento, o que me levava a pensar na sublimação, projecção, regressão, negação e sublimação como opções de um cardápio. Tal lucidez não apagava a tristeza, nem sequer lhe alterava a intensidade, mas mudava-lhe a natureza. Ao fazer radicar a tristeza na própria lucidez, a tristeza deixava de ter uma causa externa. Deve haver um nome para este ajustamento. Indexação egoísta? Usurpação defensiva? É algo que desumaniza e que não recomendo a ninguém. Enfim, tudo é relativo. Quando se fala em desumanidade, ainda nos devemos lembrar primeiro das catanadas no Ruanda. "

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:20

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Quarta-feira, 15.07.09

 

 

Planícies intermináveis

ausência de sombras

o sol a invadir tudo

pedras, pele, alma

 

Viagem sem tréguas

a única que nos inspirou

 

Agora olhamos para trás

para essa sombra amiga

acena-nos de mansinho

muito de mansinho

 

Tempo de voltar a casa

a única que nos conheceu realmente

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:36

Do Baú:

Segunda-feira, 13.04.09

 

 

Talvez eu não saiba as respostas

a tantas perguntas

 

E talvez as venha a descobrir

nas certezas mais simples

sorrisos  abraços  lágrimas

discussões sobre pequenos nadas

 

 

 


 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 10:43

Do Baú:

Quarta-feira, 25.03.09

 

 

Na mais ténue incerteza

estava a razão de estar ali

naquele preciso momento

 

e as palavras eram ditas

como em pensamento

e as não ditas...

estavam-nos no sangue!

 

 

 

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 19:59

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Segunda-feira, 08.12.08


Como podemos descrever a nossa vida?

Um caminho?

Uma encruzilhada?

Um eterno retorno?

 

Acho que tive um pouco de tudo isso.

 

Também houve um vulcão activo

e um açude caudaloso.

 

E um jardim pacífico

onde não me importava de ficar.





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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:43

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Quinta-feira, 21.08.08

 

Sim, a música também nos leva até esse tempo-espaço

que nunca é exactamente como foi mas uma reconstrução

 

Misturamos tudo, emoções e pensamentos 

imagens e claridades

 

Somos o que vivemos desde essa altura até agora

tudo no nosso cérebro como uma coisa viva

e sempre em transformação

 

Mil vezes essa amálgama confusa

de sentimentos e pensamentos, imagens e acontecimentos

que nunca sei situar

do que as certezas arrumadas de alguns

que não se deixam sequer transformar pela vida

em que a vida mal toca, passam pela vida de raspão

mergulham na existência e até parece que vivem intensamente

que mergulham por assim dizer na realidade

mas no fim de contas é tudo uma questão de superfície, de pele

não de essência nem de alma

 

A cada um a sua natureza



 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:49








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